Propostas Práticas – ARTE com as crianças…

ALGUMAS PROPOSTAS PRÁTICAS – Muitas são as possibilidades práticas. Boas descobertas!

O que precisamos “saber” sobre as crianças e o brincar…

1. O que não “sabemos” sobre as crianças…

“Cada criança reconstrói a sua própria inteligência e seu próprio conhecimento. Por exemplo, contar ou recitar o nome dos números, certamente, para a criança vem do mundo externo. Porém aprender a noção de números é algo muito diferente de aprender a recitar os nomes dos números. A noção de número é construída pela criança como um ato criativo, como uma multiplicidade de atos criativos.” (Jean Piaget, 1972, Conferência Criatividade: Psicologia, educação e conhecimento do novo)

“Se concordamos com Piaget que em todo o processo de conhecimento estamos sendo criativos (por criarmos estruturas para conhecer), talvez fosse mais adequada à preocupação com o planejamento de aulas plenas de situações novas a serem conhecidas, plenas de perguntas que desafiassem os alunos a sofrerem desequilíbrios cognitivos. E não a preocupação com o planejamento “formação para a criatividade”, mas o planejamento para as experiências de conhecimento.” – Profª Luiza Helena da Silva Chistov – Sobre a palavra criatividade: o que nos levam a pensar Piaget e Vygotsky.

Para aprender mais…

O que não sabemos sobre as crianças…

Sobre Artes PARTE 1

Para apreciar… A Moça Tecelã                                                            

Algo sobre ARTES…

“Os gregos diziam que se maravilhar é o primeiro passo no caminho da sabedoria, e que quando deixamos de nos maravilhar, estamos em perigo de deixar de saber”. (GOMBRICH, p. 7)

A Moça Tecelã
 
Por Marina Colasanti
 

EIXO 2 ALFABETIZAÇÃO Parte 4

O que é LETRAMENTO?

Letramento pode ser definido como o processo de inserção e participação na cultura escrita. Trata-se de um processo que tem início quando a criança começa a conviver com as diferentes manifestações da escrita na sociedade (placas, rótulos, embalagens comerciais, revistas, etc.) e se prolonga por toda a vida, com a crescente possibilidade de participação nas práticas sociais que envolvem a língua escrita (leitura e redação de contratos, de livros científicos, de obras literárias, por exemplo).
O termo letramento foi criado, portanto, quando se passou a entender que, nas sociedades contemporâneas, é insuficiente o mero aprendizado das “primeiras letras”, e que integrar-se socialmente, hoje, envolve também “saber utilizar a língua escrita nas situações em que esta é necessária, lendo e produzindo textos”. Essa nova palavra veio para designar “essa nova dimensão da entrada no mundo da escrita”, que se constitui de um “conjunto de conhecimentos, atitudes e capacidades necessários para usar a língua em práticas sociais” (cf. Batista, 2003). (…)
Considerando-se que os alfabetizandos vivem numa sociedade letrada, em que a língua escrita está presente de maneira visível e marcante nas atividades cotidianas, inevitavelmente eles terão contato com textos escritos e formularão hipóteses sobre sua utilidade, seu funcionamento, sua configuração. Excluir essa vivência da sala de aula, por um lado, pode ter o efeito de reduzir e artificializar o objeto de aprendizagem que é a escrita, possibilitando que os alunos desenvolvam concepções inadequadas e disposições negativas a respeito desse objeto. Por outro lado, deixar de explorar a relação extra-escolar dos alunos com a escrita significa perder oportunidades de conhecer e desenvolver experiências culturais ricas e importantes para a plena integração social e o exercício da cidadania.
MARIA DA GRAÇA COSTA VAL1

EIXO 2 ALFABETIZAÇÃO Parte 3

Para refletir

Alfabetização: acesso a um código ou acesso à leitura? – Magda Soares

Até recentemente foi consensual o sentido atribuído aos conceitos de analfabeto, analfabetismo, alfabetização: analfabeto – o que não sabe ler e escrever; analfabetismo – o estado ou condição de quem não sabe ler e escrever; alfabetização – o processo de ensinar a ler e a escrever.
Progressivamente – e particularmente ao longo da última década – vem-se revelando uma tendência a qualificar e precisar esses conceitos, ampliando seu significado. Assim, tanto na mídia quanto na literatura educacional, intensificam-se as discussões sobre um analfabetismo funcional, sobre o analfabeto funcional, multiplicam-se as críticas a uma alfabetização que, embora ensine a ler e a escrever, não habilita os indivíduos a fazer uso da leitura e da escrita nem lhes facilita o acesso ao material escrito.(…)
A alfabetização significando que a esta cabe não apenas ensinar a ler e a escrever, mas também desenvolver habilidades de uso social da leitura e da escrita e gosto pelo convívio com material escrito. Ao mesmo tempo, e como conseqüência, vai-se modificando a metodologia da alfabetização, passando a defender-se que essa se dê não por meio das tradicionais cartilhas, voltadas exclusivamente para a mecânica da leitura e da escrita, mas pelo convívio do alfabetizando com o material escrito que circula na sociedade, em diferentes gêneros e diferentes portadores. Como conseqüência, enfatiza-se cada vez mais a importância das bibliotecas públicas e escolares, do acesso ao livro, aos jornais, às revistas, da multiplicação de eventos que levem o alfabetizando à participação em práticas reais e não apenas escolares de leitura. Essa nova concepção de aprendizagem da leitura e da escrita é que faz surgir no vocabulário educacional o termo letramento, criado para designar o estado ou condição de um indivíduo que não só sabe ler e escrever – não só é alfabetizado – mas também sabe (e tem prazer em) exercer as práticas sociais de leitura e de escrita que circulam na sociedade em que vive – é letrado.
Entretanto, contraditoriamente, este novo conceito de aprendizagem da leitura, estreitamente relacionado com práticas de leitura, com a formação de um verdadeiro leitor, vem convivendo com a persistência do conceito restrito e tradicional de aprendizagem da leitura como a mera aquisição da tecnologia da escrita, como apenas formação de um decodificador da escrita. Um conceito para o qual parece ser suficiente que o indivíduo aprenda a decodificar rótulos em produtos de consumo, indicação de trajetos na lateral de ônibus, fichas de cadastro em empresas… (…)
Discute-se a questão exclusivamente no quadro de uma concepção de analfabetismo como o estado ou condição de quem não sabe ler e escrever, não mencionando em nenhum momento o acesso à leitura e a formação do leitor como objetivo central, não discutindo em nenhum momento as precárias condições de possibilidade de leitura propiciadas a uma população de 170 milhões de indivíduos a que apenas 2.008 livrarias dão acesso ao livro – uma livraria para cada 84.400 habitantes! em um país em que menos de um quarto das escolas possui biblioteca! Citam-se como iniciativas contra o analfabetismo dignas de menção apenas aqueles programas governamentais ou da sociedade civil voltados exclusivamente para ensinar rapidamente a ler e a escrever, omitindo aqueles outros que se voltam para formar leitores, em atividades de socialização do material escrito e de desenvolvimento de práticas de leitura. Não se percebe que de nada vale a aquisição da tecnologia do ler e do escrever se essa aquisição não vier acompanhada de programas que facilitem o acesso ao material escrito e incentivem a leitura e a escrita.
O que explicará essa convivência contraditória de uma concepção de alfabetização como formação de leitores com uma concepção de alfabetização como formação de meros decodificadores da língua escrita? Talvez a persistência desta última concepção tanto no senso comum, que se revela freqüentemente na mídia, quanto no senso político, que se revela em muitos dos programas de alfabetização, se possa explicar ideologicamente: à medida que se vai vencendo o analfabetismo absoluto, é conveniente que não se eleve muito o nível de leitura da população, o que poderia representar ameaça a uma estrutura social que privilegia alguns e subjuga outros – meramente saber ler e escrever não dá ao indivíduo a possibilidade de luta, enquanto tornar-se leitor é conquistar um poderoso instrumento de conscientização e de formação para a verdadeira cidadania. Enfatizando uma alfabetização entendida como mera aquisição da tecnologia do ler e do escrever mantém-se a desigualdade, ou melhor, criam-se novas formas de desigualdade: esta já não ocorre entre analfabetos e alfabetizados, como tradicionalmente, mas passa a ser entre letrados e iletrados, entre os que têm condições de acesso à leitura, os que se formam leitores, e os que apenas aprendem a ler, mas a quem se nega a oportunidade e o direito às práticas sociais de leitura.
Magda Soares é membro do Ceale – Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Faculdade de Educação da UFMG e uma das mais respeitadas pesquisadoras da área de linguagem e educação do país. É autora do livro “Letramento: um tema em três gêneros, da Autêntica Editora Comunicação & Marketing.
(FONTE: http://www.leiabrasil.org.br/textos/visualizartexto.aspx?id=442)

EIXO 2 ALFABETIZAÇÃO Parte 2

ALFABETIZAÇÃO: Ação de ensinar/aprender a ler e a escrever.

LETRAMENTO: Estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita.

cultiva = dedica-se a atividades de leitura e escrita/ exerce = responde às demandas sociais de leitura e escrita

Letramento definido em um poema

O Que é Letramento?
Kate M. Chong

Letramento não é um gancho
em que se pendura cada som enunciado
não é um treinamento repetitivo
de uma habilidade
nem um martelo
quebrando blocos de gramática

Letramento é diversão
é leitura à luz de vela
ou lá fora, à luz do Sol

São notícias sobre o presidente
o tempo, os artistas da TV
e mesmo Mônica e Cebolinha
nos jornais de domingo

É uma receita de biscoito
uma lista de compras, recados colados na geladeira
um bilhete de amor
telegramas de parabéns e cartas
de velhos amigos

É viajar para países desconhecidos
sem deixar sua cama
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos

É uma atlas do mundo
sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias
e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido

Letramento é, sobretudo,
um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é,
e de tudo que você pode ser

Referência Bibliográfica: SOARES, Magda. Letramento: Um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998.

EIXO 2 ALFABETIZAÇÃO Parte 1

Algo sobre ALFABETIZAÇÃO e LETRAMENTO…

“Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto“. “Alfabeto“ é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem.”
Rubem Alves

Para começo de conversa…

1. O que a escrita representa?
2. Qual a estrutura do modo de representação da escrita?

FRAGMENTOS do Texto FORAM MUITOS, OS PROFESSORES
Bartolomeu Campos de Queirós

Minha mãe guardava com cuidados de sete chaves, sobre a cômoda do quarto, três cadernos. No primeiro, ela copiava receitas de amorosos doces: suspiros, amor-em-pedaços, baba-de-moça, casadinhos, e fazia olho-de-sogra de cor. No segundo caderno, ela anotava riscos de bordados, com nomes camuflados em pesares: ponto-atrás, ponto de sombra, ponto de cruz, ponto de cadeia, laçadas e nós. No terceiro, ela escondia longas poesias, boiando em sofrimentos: A Louca d’Albano, Tédio, O Beijo do Papai. Eu reparava em seus cadernos, encardidos pelo tempo e pelo uso, admirava sua letra redonda e grande, com caneta de molhar, sem ainda desconfiar das palavras. Eu sabia do todo, sem suspeitar das partes. Durante muitas tardes, com o pensamento enfastiado de passado, ela passava as páginas, lentamente, espreitando as folhas vazias, como se cansada de escrever e de pouco exercer. Eram sempre as mesmas comidas, os mesmos pontos, a mesma poesia e muito por decidir.
Meu pai, junto ao rádio na alto da cristaleira e longe do meu alcance, protegia alguns poucos livros sobre homens célebres, com vidas prósperas sem precisar viajar de sol a sol. Aos pedaços ele lia os compêndios, escutando a Voz do Brasil ou o Repórter Esso. Eu apreciava o silêncio, sem me aventurar em perguntas ou demandas. De vez em quando ele interrompia a leitura e me acariciava com os olhos, me amando sem mãos, como se me desejando outros futuros diferentes do seu. Seu jeito me arranhava por não ser meu anseio me fazer herói ou mártir. Eu queria saber, mas sem perdê-lo. Lastimando a ausência de futuro, ele fechava o livro, reparava as horas e buscava o sono. Seu dia era pequeno para trabalhar por todos nós. E nos livros, eu percebia, estava escrito o já não mais possível a ele. Eu sabia irrealizável, sem querer nascer de novo.
Na pequena capela da praça morava uma imagem de sant’Ana. Minha irmã levava piedosos ramos de flores, colhidos na horta, e trocava pedidos balbuciados. Eu encarava a santa com seu livro aberto sobre os joelhos ensinando a Menina Maria. Eu espiava o livro de gesso, indagando o que a futura Mãe de Deus não sabia ainda. O que estava guardado em abençoado livro e que a Rainha desconhecia? Aproveitava as suspeitas e rezava por mim, pelas minhas desconfianças. Mesmo sabendo repetir o credo, o pai-nosso, a ave-maria, meu coração se aventurava a interrogar o Perfeito por me ofertar tanta incoerência para sobreviver.
Meu irmão, o mais velho, se debruçava sobre a mesa e examinava, enfastiado, seu livro de leitura. Passava horas soletrando, com desalento, seus afazeres. Os deveres lhe pareciam insossos, pois constantemente, pedia a meu pai para “lhe tomar lições”. Meu pai negava por não necessitar mais de lições. Já trabalhava e amava. Minha mãe, propensa a justificar fracassos, elogiava o esforço do filho maior, o suposto responsável pela família em caso de desgraça, mesmo reconhecendo não serem os livros o seu caminho. Eu invejava o lugar de meu irmão estudando afluentes do Rio Amazonas, a rosa-dos-ventos, os pontos cardeais, as três caravelas. Eu sonhava rio, vento, direção e barco sem querer partir. E, se partir, deixar bilhete sobre o norte buscado. Se sufocado em desejos, eu vivia cheio de medo de minhas vontades virarem verdades.
Minha avó, toda manhã, ainda em jejum, arrancava a página da folinha Mariana e lia as recomendações. Meditava, cambaleando no meio da sala, sobre o pensamento escrito no verso do papel para depois conferir a fase da Lua, a previsão das enchentes e estiagens. Em seguida acendia mais uma vela para os santos do dia: santa Genoveva, são Philippus, são Clemente Maria, santo Antão, santo Agripino. Eu reparava sua fé e guardava o papelzinho como se armazenando sabedoria, como se acreditando na possibilidade de o passado se repetir no futuro. Minha mãe, de soslaio, espiava minha avó e continuava sem anotar receita de olho-de-sogra em seu primeiro caderno.
Maria Turum, empregada antiga do meu avô, sabia de um tudo sem conhecer as letras. Conforme o meu olhar, ela me oferecia um pedaço de doce ou me abraçava em seu colo. Combinava o tempo de chuva com comida de angu, carne moída e quiabo, sem consultar caderno de receitas. Se meu avô pisasse mais forte, ela apressava o almoço; e, se, tossia durante a noite, vinha um prato de mingau, com pedaços de queijo, no café da manhã. Ao apertar com os dedos um grão de feijão, sabia se estava cozido ou se precisava de mais caneco de água. Olhava o céu e deixava a roupa para ser lavada em outro dia, pois faltaria sol para corar os lençóis. Nunca notei interesse seu diante das paredes do meu avô. Ela parecia não pensar além da casa. Não havia horizonte lá fora. Só conhecia o mundo tocado pelos olhos. E em sua alma, eu compreendia, não cabia mais amor além daquele dividido entre nós e revelado na limpeza da casa, no carinho da cozinha, na roupa alvejada no varal.
Meu avô, arrastando solidão, escrevia nas paredes da casa. As palavras abrandavam sua tristeza, organizavam sua curiosidade silenciosamente. Grafiteiro, afiava o lápis como fazia com navalha. A cidade era seu assunto: amores desfeitos, madrugadas e fugas, casamentos traições, velórios, heranças. Contornava objetos: serrote, tesoura, faca, machado – e ainda escrevia dentro dos desenhos um pouco do destino de cada coisa; o serrote sumiu, a tesoura quebrou, o machado perdeu o corte. Eu, devagarinho, fui decifrando sua letra, amarrando as palavras e amando seus significados. Meu avô era um construtivista (sem conhecer nem a Emília do Lobato) pela sua capacidade de não negar sentido às coisas. Tudo lhe servia de pretexto.
Eu restava horas sem fim, de coração aflito, seduzido pelas histórias de amor, pelo desafeto, de ingratidão, de mentiras do meu primeiro livro – as paredes da casa de meu avô. Assim, percebi o serviço das palavras – facas de dois gumes. Meu avô desdizia verdades eternas com as mesmas palavras com que escreveram a Bíblia Sagrada: “A bondade de Deus só não deu asa à cobra porque a cobra não cobrou; à noite todos os pardos são gatos; para quem sabe ler, um pingo nunca foi letra; em casa de ferreiro pobre, até o espeto é de pau porque não tem nem fogo”. Essa sua capacidade de negociar com as palavras, de buscar seus avessos, me atordoava e me seduzia.
Meu avô poderia ter sido meu primeiro professor se fizesse plano de aula, ficha de avaliação, tivesse licenciatura plena. O fato é que ele não aplicava prova, não passava dever de casa nem brincava de exercício de coordenação motora. Jamais me pediu que acompanhasse o caminho que o coelhinho fazia para comer a cenourinha nem me deu flor para colorir. Minha coordenação motora eu desenvolvi andando sobre muros ou pernas de pau, subindo em árvores, acertando as frutas com estilingue ou enfiando linha na agulha para minha avó chulear. Também, coelho não usava ainda nem na Páscoa, ocasião em que se comungava coordenando a hóstia para não esbarrar nos dentes nem grudar no céu da boca. Meu avô escancarava o mundo com letra bonita e me deixava livre para desvendar sua escritura.
Mesmo assim, cada dia eu conhecia mais palavras e mais distâncias, combinando melhor as orações. E suas paredes mais se enchiam de avisos sobre o mundo e as fronteiras do mundo. Eu decorava tudo e repetia timidamente. Eram tranqüilas suas aulas, e o maior encanto estava em meu avô cultivar as dúvidas. Se ele escrevia “o mundo é uma bola besta sem eira nem beira”, eu desconfiava se estava dizendo ser a Terra redonda ou se a Terra era uma piada se tamanho. Eu concluía ser as duas coisas. Às vezes ele me pegava esticando o pescoço, tentando alcançar um pedaço mais longo, um parágrafo mais alto. Ele me apontava a cadeira. Eu buscava e ele me ajudava a subir. Minha avó gritava: “Menino, desça daí, esse velho não é certo nem dá certeza”. Meu avô voltava para a janela e continuava lendo o mundo, seu único e maior livro.
(…) Em minha casa ninguém atribuía importância às minhas leituras. Eu aproveitava pedaços de jornais que vinham embrulhando coisas e lia em voz alta, procurando atenções e reconhecimentos. Meu pai me olhava e repetia sempre. “Menino, deixa de inventar histórias, você não sabe ler, nunca foi à escola” ou “Menino, deixe esse papel e vá procurar serviço melhor pra fazer”.
Passei a duvidar da escola. Parecia-me um lugar só para dar autorizações. Se a escola não autorizasse, eu não poderia saber. O medo desse lugar passou a reinar em minha cabeça. Comecei a dar razão ao meu irmão, já capaz de dirigir o caminhão assentado em um travesseiro de paina. Mas logo me veio uma idéia: quando entrar na escola, eu faço de conta que esqueci de tudo e começo a aprender de novo. “Uma mentirinha é um santo remédio para botar um ponto final em conversa fiada”, me ensinou me avô, coisa que comecei a praticar para encurtar perguntas e me livrar de incômodos. Havia pessoas que gostavam de indagar muito mais do que deviam.
(…) Fui escolhido por dona Maria Campos, minha primeira professora, com livro de chamada, caderno com plano de aula encapado com papel de seda. (…) Ela me emprestou seu lenço quando minha mãe viajou doente para a capital. Eu não usei. Preferi usar, como de costume, a manga da camisa, com medo de sujar no nariz e ela não gostar mais de mim. Todo cuidado era pouco para não perder o seu amor.
(…) Encher o caderno com fileiras e fileiras de a, e, i, o , u foi o primeiro exercício. Vaidosa, ela me apresentava os sinais para escrever e ler o mundo. (…) Eu lia cartazes, colava sílabas, recortadas, com grude de polvilho, mentindo descobrir pela primeira vez as palavras. (…) A professora jamais soube do meu adiamento.
(…) Ingênuo, supondo ser a vida um processo de soma e não de subtração, juntei de cada um dos meus mestres um pedaço e protegi em minha intimidade. Concluo agora, que, de tudo aprendido, resta a certeza do afeto como a primordial metodologia. Se dona Maria me tivesse dito estar o céu no inferno e o inferno no céu, seu carinho não me permitiria dúvidas.
Os cadernos das receitas de minha mãe, os livros velhos de meu pai, as paredes do meu avô, o livro de sant’Ana, a mudez de Maria Turim, a fé viva de minha avó, a preguiça de meu irmão e tudo o mais, tudo ficou definitivamente impossível de ser desaprendido (…)

ABRAMOVICH, Fanny (Organização), Meu professor inesquecível: ensinamentos contados por alguns dos nossos melhores escritores. São Paulo, Editora Gente, 1997

EIXO 1 LEITURA Para refletir…

O morador das palavras
Rubens da Cunha

“E se ele pudesse morar dentro das palavras? Começou morando na palavra cavalo, gostou de sua elegância paroxítona e desacentuada, de sua quase toda leveza. Ficou morando lá pouco tempo, porque cavalo é também palavra indócil, dada a galopes, a selvagerias. Viu que não podia morar em palavras que designassem animais. Elas absorvem a personalidade dos bichos, precisava de palavra estática e menos inconstante. Resolveu morar em árvore. Os primeiros dias foram de paz, palavra boa, cheias de vogais e erres curvos. E tinha os verdes: adorava-os. Depois foi cansando, cegando-se em verde. Monotonia. A sua nova casa não ia além do significado. Sempre fixa, o máximo que conseguia de loucura era vento esparso, acontecido nas madrugadas ou nos finais de tarde. A palavra árvore logo o entediou.

Mudou-se então para o pasto. Acreditava que palavra tão curta com significado tão gigante poderia ser um espaço agradável para se viver. Resolveu ficar, mesmo com medo diante de tanto verde. Estava ainda enjoado das verdolências, e pasto não conseguia ser de outra cor. Agüentou mais que na palavra árvore. Pasto é verde, mas tem amplidão, traz em si nenhum muro. Pasto sibila liberdade. Ainda assim, não era a casa ideal. Depois de muito procurar, urbanizou-se. Nada de distâncias, larguras. Foi morar em concreto, palavra dura, porém aberta, um tanto áspera, mas em dias violentos bastante segura. E nada de verdes. Pintou as paredes internas da palavra concreto de lilás e as externas de amarelo. A razão disse-lhe que não combinava: onde já se viu? O concreto ser lilás e amarelo? Pouco ligou. Estava morando em palavras, porque precisava ser racional? Além disto, já tinha residido em árvore e pasto, os dois eram verdes conforme a razão. Agora não! Queria concreto amarelo e lilás. Foram de sonhos os primeiros meses. Só que, depois, não tinha mais paredes para pintar, despintou cada uma delas, repintou tudo de novo, invertendo as cores. Cansou disso também.

Que agonia não encontrar palavra que seja boa moradia, palavra que o comporte inteiro, sem que ele se desespere para mudar novamente. Tinha escolhido apenas palavras concretas, resolveu partir para o abstrato. Pensou em viagem: comum demais. Esteve na porta de suicídio: trágica demais. Vasculhou saudade, paixão, amor, ódio: já muito habitadas, não estavam em bom estado de conservação.

Andava ao léu, sem palavra que lhe servisse de teto, quando, surgida do nada, viu a casa de sua vida, ali, exata, fluida, inteira como sempre desejou. Não precisou alterar, consertar, desmanchar coisa qualquer, apenas abriu a porta e entrou. Vive até hoje em exílio. Está confortável. Mudar de palavra é coisa esquecida” .

Eixo 1 LEITURA: Experimentando…

Para experimentar…

Concertos de leitura
Rubem Alves

Penso que, de tudo o que as escolas podem fazer com as crianças e os jovens, não há nada de importância maior que o ensino do prazer da leitura. Todos falam na importância de alfabetizar, saber transformar símbolos gráficos em palavras. Concordo. Mas isso não basta. É preciso que o ato de ler dê prazer.

Para experimentar

EIXO 1 Leitura


Algo sobre LEITURA…
“A leitura do mundo, precede a leitura da palavra” Paulo Freire

Qual é o desafio?

O desafio é formar praticantes de leitura e da escrita e não apenas sujeitos que possam “decifrar” o sistema de escrita. É – já o disse – formar leitores que saberão escolher o material escrito adequado para buscar a solução de problemas que devem enfrentar e não alunos capazes apenas de oralizar um texto selecionado por outro. È formar seres humanos críticos, capazes de ler entrelinhas e de assumir uma posição própria frente à mantida, explicita ou implicitamente, pelos autores dos textos com os quais interagem. Em vez de persistir em formar indivíduos dependentes da letra do texto e da autoridade de outros.
O desafio é formar pessoas desejosas de embrenhar-se em outros mundos possíveis que a literatura nos oferece, dispostas a identificar-se em outros mundos possíveis que a literatura nos oferece, dispostas a identificar-se com o semelhante ou a solidarizar-se com o diferente e capazes de apreciar a qualidade literária.assumir esse desafio significa abandonar as atividades mecânicas e desprovidas de sentido, que levam as crianças a se distanciar da leitura por considerá-la uma mera obrigação escolar, significa também incorporar situações em que ler determinados materiais seja imprescindível para o desenvolvimento dos projetos que se estejam levando a cabo, ou –e isto é igualmente importante – que produzam o prazer que é inerente ao contato com textos verdadeiros e valiosos.

(DELIA LERNER – Ler e escrever na escola – o real, o possível e o necessário)

A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER
Paulo Freire

“(…) A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
(…) A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.
(…) Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de minha escolarização, foi a leitura da “palavramundo”.
A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia – e até onde não sou traído pela memória -, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, e revivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores.
(…) Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros – o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; as águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas núvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas, dos jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos.”